Graf Spee - Sua fama e sua história


Parte 1


A história de um dos mais famosos navios de guerra de todos os tempos tem início na Alemanha, em 23 de agosto de 1932, quando foi firmado um contrato para a construção de um terceiro encouraçado da classe Deutschland, o Admiral Graf Spee, nos estaleiros da Marinha em Wilhemshaven. Outros dois eram Admiral Sheer e o mais antigo Deutschland (Alemanha), o qual posteriormente teve o nome trocado para Lutzow, pelo motivo de propaganda para a Alemanha.


O nome Admiral Graf Spee foi dado em homenagem ao vice almirante Maximilian Johannes Maria Hubert Reichsgraf Von Spee, vencedor da batalha de coronel nas costas do Chile, em 1914, durante a 1ª Guerra Mundial. Em dezembro do mesmo ano Von Spee foi morto durante a Batalha das Malvinas no comando do cruzador Scharnhorst, enfrentando uma frota inglesa muito mais poderosa. Dois de seus filhos participaram desta batalha, um deles a bordo do Gneisenau e outro no Nürenberg, também pereceu nessa batalha.


O Graf Spee parte do porto de Hamburgo em 1938 para mais um aviagem de treinamento.


Logo após a 1ª Guerra, a Alemanha sofreu uma série de restrições com o Tratado de Versailles, entre elas a de não poder ter navios de combate com mais de 10 mil toneladas, tendo sido esse o motivo que levou a Alemanha a construir três encouraçados de bolso. Os armadores alemães aproveitaram a vantagem de uma definição de tonelagem estabelecida na Conferência Naval de Washington, em 1922, que se baseava na tonelagem sem água e sem óleo. De acordo com a tal Conferência, os encouraçados de bolso eram aceitos, porém – de acordo com a definição de uso geral – pesavam aproximadamente 12.500 toneladas (inclusos água e óleo), ou seja: os encouraçados de bolso alemães foram construídos “de acordo com a lei”.


O almirante Erich Raeder era a favor da construção de navios de superfície, porém o almirante Karl Dönitz era totalmente favorável á construção de submarinos; e sempre que participava de reuniões, defendia suas idéias explicando que, com o valor de um encouraçado, poder-se-ia construir vários submarinos.


Os encouraçados de bolso seriam navios com grande poder de fogo, similar aos dos encouraçados pesados, porém com maior velocidade: pela primeira vez foram utilizados motores a diesel em vez das ultrapassadas caldeiras a vapor.


O Graf Spee era equipado com 8 motores Man de 7.000 OS (Pferde-Stärke, ou seja, cavalos-vapor) cada, o que gerava um total de 56.000 CV; e sua capacidade era de 2.500 toneladas, o que lhes dava uma autonomia de 18.000 km. Sua tripulação completa era de 1.124 homens, entre eles 44 oficiais, e incluía também cinco homens da Luftwaffe (piloto, co-piloto e três técnicos de avião de bordo).


O mais impressionante no Graf Spee era o seu armamento: contava com duas torres de três canhões SK L/52 C28 cada, uma na proa e outro na popa, de calibre 280 mm (de tiro rápido) manufaturados pela Krupp. Esses canhões poderiam disparar 300 kg a 35 quilômetros de distância e eram equipados com moderno sistema que neutralizava o movimento do navio no mar, aumentando assim a precisão dos disparos. Nas laterais estava armado com canhões SK L/55 C28 de 150 mm (de tiro rápido), com alcance de 22 quilômetros. Além dos citados canhões, dispostos quatro de cada lado da embarcação, contava ainda com três torres duplas com canhões tipo SK L/65 C33, de calibre 105 mm (também de tiro rápido) com alcance máximo de 17 quilômetros.


Seu armamento leve consistia de oito canhões (de montagem dupla) de 37 mm, tipo SK L/83 C30 com alcance de 17 quilômetros; e sua artilharia aérea era composta de doze canhões de 20 mm, modelo SK L/65, com alcance de 4,9 quilômetros. Na popa o navio contava com dois lançadores quádruplos de torpedos, modelo G, com 533 mm de diâmetro por 7 metros de comprimento. O peso total de cada torpedo era de 1.900 kg. Seu alcance efetivo superava 11 km.



O Graf Spee lançado ao mar em 1934, foi construído respeitando o tratado de Versailles e reunia as técnicas mais modernas da construção naval.

O Graf Spee levava a bordo um hidroplano Heinkel HE 60 que posteriormente foi substituído por um hidroavião Arado AR 196 A – I de reconhecimento, modelo equipado com motor radial BMW de 900 HP, podendo alcançar s uma velocidade máxima de 310 km/h e autonomia para 1070 km. Essa aeronave estava equipada com uma metralhadora fixa de calibre 7,92 mm e outra metralhadora similar no posto de observação, podendo levar ainda duas bombas de 50 kg.


Para um navio de apenas 186 metros de comprimento, era um armamento fantástico – isso sem citar o novo telêmetro e radar de ultima geração, modelo FuMO tipo 22, que posteriormente foi montado no navio.


Em 30 de julho de 1934 o Graf Spee foi lançado ao mar, levando em sua proa o escudo da família Von Graf Spee e, em janeiro de 1936, foi posto em serviço sob o comando do Capitão Patzig, o qual comandou o navio até 1937, quando foi substituído pelo Comandante Walter Warzecha. O Graf Spee participou de guerra civil espanhola em diversas ocasiões, no período de 1936 a 1938.


Em 20 de maio de 1937 o Graf Spee foi o Flaggshiff (barco-insígnia) na Inglaterra, durante a revista naval por ocasião da coroação do Rei Jorge da Inglaterra, tendo sido o maior acontecimento naval desde a 1ª Guerra Mundial. Curiosamente, se encontrou com seus futuros adversários, os navios ingleses Exeter, Ajax e Achilles.


Naquela época os britânicos contavam com a maior esquadra do mundo, composta de 165 navios e, por este motivo o próprio Almirante Erich Raeder – em um comentário feito em 3 de setembro de 1939 – afirmou: “É evidente que nossa armada não está preparada para uma guerra com a Inglaterra. As forças de superfície que temos são tão inferiores em número e poderio, quando comparadas com a esquadra britânica, que nossos homens não poderão fazer nada melhor que mostrar como morrer bravamente”. Com esta declaração fica claro o motivo pelo qual o Graf Spee deveria evitar combates com navios militares.


Em novembro de 1938 o capitão Hans Langsdorff, veterano da Batalha de Jutlandia e condecorado com uma Cruz de Ferro durante a 1ª Guerra Mundial, ele assume o comando do Graf Spee, e em 1939 de 22 a 24 de março, o navio participa da operação da anexação de Memel; e todos os tripulantes do Graf Spee que participaram receberam a condecoração referente ao evento.


Sempre que aparecia uma oportunidade, os tripulantes aproveitavam para ir ao convés para fazer exercícios, tomar sol e conversar com os amigos; e a manutenção – e até mesmo pintura – eram feitos pela própria tripulação do navio.


Em 21 de agosto de 1939, alguns dias antes de se iniciar a 2ª Guerra Mundial, o Graf Spee parte para sua ultima viagem: ele teria que ficar de prontidão no Oceano Atlântico e aguardar instruções, porém no dia 26 de agosto enfrenta uma fortíssima tempestade; e aquele oceano demonstra toda sua fúria, colocando uma vez mais o navio e a tripulação a toda prova: conforme o diário de Josef Schreiber, o suboficial Matzker é atirado ao mar por um grande vagalhão que varreu o convés e, na tentativa de salvamento, lançam um salva-vidas. Procuraram por ele durante várias horas sem resultado, sendo essa a primeira baixa do Spee. No dia 28 é feito um ato em memória de Matzker.


No dia 1º de setembro o Capitão Langsdorff avisa a sua tripulação sobre a invasão na Polônia – era o inicio da 2ª Guerra, e a tripulação fica apreensiva quanto ao futuro. Neste mesmo dia o Graf Spee se encontra com seu navio de apoio, o cisterna Altmark, um navio tanque de 7.921 toneladas que estava camuflado sob o nome Sogne, um suposto navio tanque norueguês com matrícula em Oslo. Seu capitão era Heinrich Dau.


No dia 26 de setembro, a ordem que todos aguardavam é recebida diretamente de Berlim: O Graf Spee deveria capturar navios mercantes ingleses e evitar a qualquer custo os combates com navios militares.


Em 30 de setembro o Spee faz sua primeira vítima; e a guerra chega muito próximo de nós no Brasil; o navio cargueiro inglês Clement, de 5.050 toneladas, é capturado próximo a costa de Alagoas, a apenas 130 quilômetros do porto de Maceió. Após retirar todo o material aproveitável e colocar a tripulação em botes salva-vidas, o Clement é afundado com disparos de artilharia e em seguida o Graf Spee envia um SOS a uma retransmissora brasileira indicando a posição do naufrago e se assina Admiral Sheer para confundir os ingleses.


Em 4 de outubro o almirante britânico resolve organizar um grupo de caça para fazer frente à ameaça do misterioso corsário. Assim, diversos cruzadores e encouraçados, organizados inicialmente em oito grupos, são enviados ao Oceano Atlântico. O almirante britânico não acredita que o autor deste afundamento tenha sido o Graf Spee, pois a base de Kiel havia sido bombardeada pela R.A.F. (Força Aérea Inglesa) no dia 4 de setembro e, ao que tudo indicava, o Graf Spee tinha saído da base de Kiel no dia 21 de agosto, se esquivando dos navios ingleses, até chegar ao Atlântico Sul – local em que aguardaria ordens do alto comando naval.


Em 5 de outubro, o Newton Beach, de 4.650 toneladas, é capturado: seu capitão, que pensava se tratar de um navio francês, só percebe seu erro a cerca de 1 km. Por esse motivo a abordagem feita pelo Prisenkommando foi muito rápida (essa era a tropa de “comandos” que, em toda vez que um navio era capturado, imediatamente se fazia ao mar para capturar a tripulação e confiscar documentos). Nesse caso, pela rapidez do grupo foram apreendidos vários documentos de importância, porém o mais importante foi a captura do transmissor Marconi: com esse equipamento, Langsdorff poderia escutar e decifrar as ordens do alto comando inglês para seus navios – sendo esse o motivo pelo qual o Spee estava sempre à frente de seus perseguidores. Dessa vez todos os tripulantes são levados a bordo do Graf Spee, porém o navio não é afundado de imediato, sendo utilizado como barco de serviço por algum tempo; e no dia 8 de outubro é levado a pique.


O Graf Spee trazia um aviso em inglês, no alto de sua torre de comando, com os dizeres Stop wireless or I open fire (parem as comunicações ou abro fogo). Esse aviso também era transmitido por rádio aos navios capturados.


Graf Spee em patrulha no Atlântico. Observe que o banner no aviso da superestrutura é enviado para não transmitir um sinal de socorro.


O local mais procurado pela tripulação era a cantina do Graf Spee, onde todos se confraternizavam tomando a famosa cerveja alemã. As despesas a bordo do navio eram feita com moedas de alumínio no valor de 50, 100 e 200 centésimos de marcos; e com elas se podia comprar desde itens de uso pessoal até cartões postais. O refeitório também servia de dormitório: à noite as mesas retráteis eram retiradas, e as camas – que eram similares a redes manufaturadas em lona – ficavam presas na estrutura do navio.


Em 7 de outubro, o mercante inglês Ashlea, , de 4.222 toneladas, é capturado: seu capitão, Charles Pottinger, também confunde o Spee com um navio francês. A carga do Ashlea era composta de açúcar, o qual foi bem aproveitado pela tripulação do Spee, tão logo a tripulação e a carga foram retiradas, aquele navio mercante foi afundado com quatro cargas de explosivos.


Com o passar dos dias o desespero do almirantado britânico aumentava, pois mesmo concentrando as buscas com diversos grupos de caça não se conseguia localizar o Spee. O serviço de inteligência da Marinha Inglesa recebia informações desencontradas, pensando até mesmo que se tratava de um navio mercante alemão armando canhões de 4 a 6 polegadas, segundo a United Press no dia 2 de outubro; e por vezes era informado que se tratava do encouraçado de bolso Admiral Sheer.


O calor no Atlântico Sul é quase sempre insuportável e fez com que a tripulação improvisasse algumas piscinas feitas com lona e madeira. E, como eram poucas para toda a tripulação, eles se revezavam nos banhos de tempos em tempos.


Em 10 de outubro o cargueiro Huntsman, de 8.300 toneladas que levava carregamento de chá e mineral de ferro para os ingleses, é capturado, tendo sua abordagem sendo efetuada em menos de 7 min. Consequentemente toda documentação e informes secretos sobre a rota dos cargueiros inimigos são confiscados. Em 17 de outubro as tripulações do Newton Beach e do Huntsman são transferidas para o Altmark; e o Huntsman é afundado com cargas explosivas.


S.S. Huntsman


Em 22 de outubro o Graf Spee lança o hidroavião arado para um reconhecimento aéreo, do qual retoma pouco tempo depois informando ter avistado um cargueiro à distância de 150 km . Então o Spee muda de rumo atrás de sua presa e, cerca de 4 horas depois avista e captura o mercante inglês Trevanion, de 5.350 toneladas , que transportava uma carga de produtos químicos. Após os prisioneiros serem transferidos o navio é afundado com cargas explosivas.


Em 15 de novembro o Africa Shell – um pequeno navio tanque de 706 toneladas – é capturado nas costas da Africa e seu capitão Patrick Dove ainda tentou escapar, porém um tiro disparado próximo a proa o fez mudar de ideia por estar aquela embarcação próxima da costa, a tripulação foi para lá enviada em botes salva vidas, porém o capitão Dove foi levado ao Graf Spee. Curiosamente os capitães Langsdorff e Pratrick Dove se tornaram amigos.


Durante o mês de novembro o hidroavião do Graf Spee sai para um reconhecimento e perde o contato por rádio com o navio. Segundo o diário de Schreiber, o navio procura pelo avião por mais de 4 horas, ficando a tripulação preocupada. Com tudo, ao final da tarde o avião é localizado.


No final de dezembro o Graf Spee é camuflado com uma torre de canhão a mais na proa e uma segunda chaminé; A torre de comando é pintada com duas faixas na cor negra para se parecer com a de navios anglo-franceses e, além disso foram pintadas na linha de flutuação duas ondas na cor branca que, a distância, davam a impressão de que o navio estava sempre a grande velocidade. A camuflagem ficou tão perfeita que certa vez que o AltMark chegou a fugir dele, pensando que era um navio inglês, mas tendo sido avisado em seguida, por rádio, que se tratava do Graf Spee.


27 de novembro de 1939: Um conjunto de armas falsas para disfarçar a verdadeira identidade do almirante Graf Spee é adicionado acima da torre dianteira.


Nos dias seguintes o Spee continuou sua caçada e, em 2 de dezembro, localizou sua maior presa: O mercante Doric Star, de 10.093 toneladas, da empresa Blue Star line. Esse navio estava armado com um canhão de 75 mm em sua popa e, por esse motivo (De acordo com as vigentes leis de guerra), poderia ser afundado sem aviso prévio. Sua carga principal era de lã e carne e, apesar dos avisos por rádio, o navio continuava enviando sinais de SOS. Devido a isso, o Spee abre fogo sobre o posto de rádio o qual em seguida silencia. A ideia de Langsdorff era capturar o navio e utilizá-lo como barco de serviço, porém os oficiais do Doric Star já aviam aberto as válvulas do fundo do casco, inundando a sala de máquinas tornando o motor inoperante. Por esse motivo, tentou-se afundá-lo com cargas explosivas, mas, devido à demora para soçobrar, Langsdorff ordenou um disparo de torpedo; em poucos minutos o navio desapareceu nas águas do atlântico.


Logo após o Doric Star afundar, Schreiber escreve em seu diário: “Em breve nosso navio poderá ser “apagado”, mesmo estando equipado com diversas armas.” Tal frase bem demonstra a preocupação da maior parte da tripulação do navio. Apesar dos ingleses terem lançado diversos grupos de caça com vários navios, não conseguiam localizar o Graf Spee; e a marinha inglesa perdia muito de sua eficiência em outros locais, sendo isso exatamente o que seu opoente alemão queria; desviar a atenção dos ingleses, podendo assim ter mais liberdade em suas ações navais.


O Graf Spee, porém, não cessou a caçada aos navios ingleses: em 3 de dezembro localiza e captura o Tairoa, de 7.963 toneladas, com seu carregamento de perus congelados. Curiosamente, no diário de Joseph Schreiber um dos tripulantes do Spee escreve: “ os ingleses não vão poder contar com esses perus para o natal.” Seguindo a rotina de retirar toda a tripulação do navio,o navio vai a pique com disparo de torpedo.


Em 9 de dezembro o Spee faz sua ultima vitima, o mercante Streonshalh, de 3.900 toneladas. O vaso inglês levava uma carga de trigo da argentina para a Inglaterra e foi afundado com disparos de canhões 105 mm.


A de se ressaltar sobre o comandante Langsdorff que, durante a captura e afundamentos dos 9 navios ingleses, nunca ouve uma morte sequer; e o capitão era considerado por sua tripulação um homem bom e de grande caráter.



Foto curiosa, o Capitão Langsdorff aproveita o sol com seu novo amigo Patrick Dove, Capitão do navio Africa Shell. Os dois conversam sob a sombra dos lançadores de torpedos do Graf Spee.

Parte 2


Graf Spee, o navio mais moderno da frota alemã, lançado ao mar em 1934 e posto em serviço em 1936, era orgulho da marinha alemã, tendo participado da guerra civil espanhola em diversas ocasiões, no período de 1936 a 1938. Em novembro de 1938, o comandante Hans Langsdorff, veterano da 1ª Guerra Mundial, assume o comando do navio.


Alguns dias antes de se iniciar a 2ª Guerra Mundial, em 21 de agosto de 1939, o Graf Spee é enviado para o Oceano Atlântico, onde deveria aguardar novas ordens. No dia 1º de setembro a Alemanha invade a Polônia e tem início o segundo conflito mundial. Em 26 de setembro o Alto Comando Alemão envia a ordem de inciar a ofensiva contra os navios mercantes ingleses.


Em pouco mais de dois meses, o Graf Spee captura e afunda 9 navios mercantes ingleses, somando mais de 50.000 toneladas. A Marinha Inglesa, apesar de todos os esforços, não consegue localizar o Graf Spee mesmo contando com vários grupos de caça no Oceano Atlântico, e de vários cruzadores e encouraçados.


Às 5:52 da manhã do dia 13 de dezembro, o Graf Spee avista a longa distância um mastro no horizonte e, como de costume, soa o alarme em todo o navio: os postos de combate são ocupados, mas, infelizmente, o avião de reconhecimento embarcado no navio não pode ser utilizado pois alguns dias antes, ao descer no mar, a água atinge seu motor, danificando-o irremediavelmente.


O Capitão Langsdorff ordena manter o rumo e aumentar a velocidade. Cerca de alguns minutos depois, o primeiro navio é identificado como um cruzador e, em seguida, surgem outros navios no horizonte. Langsdorff pensa tratar-se de um comboio mercante inglês tendo este cruzador como escolta. Às 6:15 o Spee consegue identificar os dois navios restantes: são navios de guerra (cruzadores) ingleses que faziam parte do grupo de caça G, comandado por Sir Henry Harwood, que, segundo seus planos, acreditava que o Graf Spee deveria estar próximo ao Rio da Prata entre os dias 12 e 13.


Langsdorff percebe tratar-se somente de unidades de combate, e não um comboio. Os navios são o cruzador pesado Exeter, de 8.390 toneladas, o cruzador Ajax, de 6.985 toneladas (ambos da Inglaterra) e o cruzador Achilles da Nova Zelândia, de 7.030 toneladas. Rapidamente os navios se aproximam e o Graf Spee perde sua vantagem principal – o maior alcance de seus canhões de 280 mm.


Às 6:17 o Spee dispara a primeira salva contra o Exeter. O grupo de combate se divide em dois para atacar ambos lados do Graf Spee, obrigando o navio alemão a dividir o fogo: os primeiros projéteis começaram a fazer estragos no Exeter e, logo em seguida uma de suas três torres principais de artilharia fica fora de combate, atingida por um tiro de 280 mm. Alguns minutos depois, outra torre principal também é posta fora de combate; e o Exeter é tomado por um grande incêndio, tombando para estibordo devido à inundação em alguns de seus compartimentos, mas ainda assim consegue disparar com seus canhões de menor calibre.


Neste ínterim, Langsdorff se dirige a parte mais alta da torre de comando para dirigir o combate. Cerca de dezoito torpedos são disparados pelos três navios ingleses contra o Spee durante a batalha; e o Capitão Langsdorff, com maestria, consegue evitar todos. Porém, durante o combate, ele é ferido por estilhaços no braço e no ombro direito, mas sem muita gravidade.


O Spee recebe um disparo direto do Exeter na parte superior de um dos canhões de 105 mm, matando e ferindo vários homens. A esta altura, o Exeter está praticamente fora de combate, aguardando o tiro de misericórdia – algo que curiosamente nunca aconteceu; e até hoje não se sabe o motivo que levou o Capitão Langsdorff a não dar o golpe final neste navio.


O Ajax e o Achilles também recebem diversos impactos, o combate prossegue e , às 7:40 – quando o comodoro Henry Hardwood (comandante e Chefe da Divisão Sul americana da Real Marinha Britânica) decide retirar seus navios de combate vista a superioridade e eficácia do fogo inimigo, os ingleses haviam perdido a batalha; e assim termina o combate naval desenrolado próximo a Punta Del Este. No restante do dia foram disparadas apenas algumas salvas de ambas as partes, mas sem grandes efeitos. Durante o combate o Graf Spee teve 36 mortos e cerca de 60 feridos. Já os ingleses contaram com 72 mortos e mais de 100 feridos.


Os dois cruzadores ingleses, apesar de abandonar a luta, continuaram a seguir o Spee a longa distância para evitar seus disparos; e a bordo o Capitão Langsdorff faz um levantamento minucioso sobre os estragos em seu navio e chega a conclusão que eram maiores do que ele pensava: o principal foi a caldeira de purificação de óleo Diesel (sem esta caldeira não se poderia processar o combustível para os motores), um projétil de 150 mm atravessou a parte superior da proa, explodindo no costado interno do casco esquerdo e abrindo um rombo de 2 X 1,5 metros acima da linha de água, a cozinha foi totalmente destruída por outro disparo, o equipamento de dessalinização de água potável, o sistema anti-incêndio e uma boa parte do setor elétrico tinham que ser reparados e, finalmente, o telêmetro tinha sido atingido, assim como outros equipamentos importantes do navio.


14 de dezembro de 1939: Um guarda de honra fica ao lado dos caixões dos homens mortos na Batalha do Rio da Prata.


Langsdorff decide que seria melhor se dirigir para o porto neutro de Montevidéu, no Uruguai, para efetuar os reparos, porém este país tinha forte influencia inglesa, pois os britânicos eram os maiores compradores de produtos no Uruguai. A maioria dos oficiais não estava de acordo com essa decisão: por eles o comandante deveria continuar, uma vez que o Graf Spee estava vencendo a batalha.


O Porto de Montevidéu fica no interior do Rio da Prata, um rio que, apesar de muito largo, não é tão profundo.


O Capitão Langsdorff, preucupado com a situação no Uruguai, lê as manchetes do jornal sobre seu navio, porém o prazo final de estadia no porto já havia sido estipulado.

Às 22:30 do dia 13 de dezembro o Graf Spee entra no porto de Montevidéu e a 200 metros das docas lança âncoras próximo ao mercante alemão Tacoma, que no futuro seria muito útil; e à 1:30 da madrugada do dia 14 foram desembarcados 5 feridos graves. No dia seguinte são libertados 61 prisioneiros ingleses que estavam a bordo, entre eles o Capitão Patrick Dove, do Africa Shell e o Capitão Charles Pottinger, do Ashlea. O Graf Spee tinha na tripulação 6 chineses que trabalhavam na lavanderia do navio, porém pelo fato de serem civis e de países não envolvidos no conflito ficam livre da internação.


Durante a batalha um projétil atravessou o tombadilho do Spee, indo explidir no costado da proa e abrindo um rombom de 2x 1,5m acima da linha d' agua

O Capitão Patrick Dove, antes de sair do navio, vai até o posto de comando do Capitão Langsdorff para se despedir, em um gesto de amizade. Langsdorff entrega ao amigo uma fita com o nome do seu navio, usada na boina de um dos seus tripulantes, morto em combate.


A partir deste dia, iria começar uma grande batalha diplomática entre os embaixadores da Alemanha, Sr. Otto Langmann, e o embaixador britânico, Sir. Eugen Millington Drake.

O ministro de relações exteriores do Uruguai era o Dr. Don Alberto Guani; e o presidente em exercício era o General Alfredo Baldomir. Neste mesmo dia o embaixador alemão pede ao governo uruguaio um prazo de quinze dias para que o navio possa ser reparado e, principalmente, ganhar tempo para que os submarinos alemães pudessem chegar ao Rio da Prata para dar cobertura ao Spee.



No dia 15 dezembro, às 10:00, é realizado no cemitério Norte, em Montevidéu, o funeral dos 36 mortos em combate do Graf Spee, Milhares de uruguaios compareceram à cerimônia, inclusive os Capitães ingleses dos Navios capturados: Cap. Dove, do África Shell, e Cap. Pottinger, do Ashlea; e o Cap. Starr, do Tairoa, demonstrando respeito não só pela tripulação do Spee como também a Langsdorff.



O Capitão Langsdorff faz saudação ao velho estilo militar no cemitério Norte, em Montevidéu, durante o enterro de seus comandados.

Após varias reuniões em que o próprio Langsdorff participou exaustivamente ( sob pressão do embaixador inglês e principalmente do governo britânico) o prazo final estipulado é de apenas 72 horas e expira no dia 17 de dezembro, às 20:00.


Depois de perder a batalha diplomática, Langsdorff decide procurar o único estaleiro que poderia reparar o Graf Spee: a empresa Regusci. Voulminot, seu proprietário (um francês que havia perdido um avô na guerra franco-prussiana) negou-se veementemente a fazer qualquer reparo no Graf Spee apesar da insistência do capitão. Langsdorff, a partir desse momento sem outras opções e acreditando que próximo ao Rio da Prata diversos navios ingleses estavam a sua espera, envia no dia 16, a Berlim suas opções:


1 – Abrir caminho até Buenos Aires com a escassa munição restante;

2 – Enfrentar os Britânicos no Rio da Prata (seria uma opção perigosa pois devido a pouca profundidade poderia encalhar ficando a mercê dos ingleses);

3 – Afundar o navio, apesar do rio não ser muito profundo;

4 – Ou deveria se submeter à internação.


Ao receber as opções de Langsdorff em Berlim, o Almirante Raeder informa que ele deveria tomar a decisão final, isso bem demonstrando a confiança que o alto comando naval tinha no Capitão Langsdorff.


Após tomar sua decisão, começa aos poucos a transportar os homens do Spee para o mercante alemão Tacoma, que estava próximo ao Spee; e convoca o embaixador alemão, Otto Langmann, para uma reunião em seu navio e lhe faz um pedido para conseguir algum meio de transporte que levasse toda a tripulação do Spee para o porto de Buenos Aires.


O Rebocador Argentino Gigante levando parte datripuçaçao do Spee para Buenos Aires.Outro rebocador, O Colosso também participou da operação de resgate.


Isso foi conseguido através do embaixador alemão na Argentina, Dr Edmund Freiherr Von Thermann, o qual contratou o experiente Capitão Rudolf Heppe e uma empresa de rebocadores, a Antonio Delfino. Com apoio da empresa de navegação alemã Hamburg-Sud na Argentina, agora seu plano estava pronto.



Enquanto a tripulação aguarda a decisão do governo, a rotina do navio permanece a mesma. Note a águia do III Reich na popa do navio: esta águia foi recentemente resgatada no Rio da Prata.

São enviados dos rebocadores ( o Gigante e o Colosso ) e a chata Chiriguana que discretamente retira a tripulação do Spee que está no Tacoma. Enquanto isso, Landsdorff separa 43 homens especializados em munições e explosivos e informa que o Spee seria afundado no Rio da Prata e que todos os aparelhos eletrônicos, armamento e documentos vitais teriam que ser destruídos para que os segredos do encouraçado não caíssem na mão dos ingleses. A maior parte do equipamento foi destruída com granadas de mão; nas torres dos canhões de 280 mm da proa e da popa foram colocados cabeças de torpedos com dispositivos de tempo, assim como na parte central do navio, e seis dos oito motores do navio foram totalmente danificados.


No dia 17 de dezembro , pouco antes do tempo de vencer o prazo dado pelo governo uruguaio, o Spee hasteia a Kriegsflag (bandeira de guerra alemã) e uma multidão aguarda ansiosamente a saída do Graf Spee.



Fotos tiradas algumas semanas após o incêndio do Graf Spee: devido à pouco profundidade do rio, parte da superestrutura fica para fora d' água. Porém, com o passar dos anos, o navio foi totalmente coberto por aquelas águas.


Durante o enterro do Capitão Langsdorff que se suicidou na madrugada de 20 de dezembro, o oficial Wattenberg leva suas condecorações à frente do cortejo.

Em seu diário, Josef Schreiber escreve “ o pessoal está no Tacoma e nós vamos com o Spee’’. Schereiber era um dos tripulantes especializados em torpedos e fazia parte da tripulação dos 43 homens escolhidos para destruir o Graf Spee.


Túmulo do Capitão Langsdorff no cemitério alemão de Chacarita, em Buenos Aires ( Argentina).

Às 18:20 o Graf Spee parte para sua ultima viagem, o porto, as docas e a orla marítima estavam repletos de gente ( cerca de 300.000 pessoas), todas querendo assistir o desfecho: o navio passa a saída do porto em frente a todos os expectadores soltando uma leve fumaça da sua chaminé e, a cerca de 3 quilômetros do porto, o navio para e ninguém sabe o motivo desta parada repentina. Porém, cerca de vinte minutos depois uma grande explosão ecoa em toda orla marítima. Um clarão, seguido de uma grande coluna de fumaça, escapa do Graf Spee e começa um grande incêndio. As explosões se sucedem. O Spee começa a afundar e a multidão não acredita no que está acontecendo.


O Incêndio no navio dura vários dias. Schreiber escreve em seu diário: ‘’ o navio está saindo do porto, e com a bandeira de guerra. Fora do porto os ingleses estão aguardando nosso navio e, felizes com sua vitória, aconteceu o que eles menos esperavam: explodimos o navio’’.


Nesse ínterim, os rebocadores furtivamente se dirigem para o porto de Buenos Aires, viajam a noite toda e chegam ao porto argentino no dia seguinte. Os três barcos levavam 1.055 tripulantes do Spee, os quais são internados na capital argentina.


Schreider escreve em seu diário, logo após chegar em Buenos Aires: ‘’ os argentinos parecem muito hospitaleiros; os uruguaios nem tanto’’. Em Buenos Aires, toda a tripulação é fichada e recebe uma carteira de internação com fotografia para que pudessem ser identificados.


Após certificar-se que toda a tripulação estava salva e em segurança, o Capitão Hans Langsdorff estende a bandeira alemã no piso de seu quarto e se suicida sobre ela, com um tiro de pistola, na madrugada do dia 20 de dezembro. O Capitão deixou a seguinte carta explicando o motivo de sua ultima decisão: ‘’ Agora posso provar com minha morte que os soldados alemães se encontram prontos para morrer pela honra de sua bandeira’’.


Langsdorff, o vencedor da batalha de Punta Del Leste era um homem de grande moral e caráter: dos nove navios capturados e afundados nunca tirou uma vida sequer e sempre se certificava que as tripulações estavam salvas. Até mesmo seus adversários o respeitaram e o admiravam.


Até o final da Segunda Guerra, a tripulação ficou internada em diversas cidades da Argentina, tais como: Mendoza, Santa Fé, Córdoba, Rosario e San Juan, Os oficiais ficaram internados na ilha Martin Garcia porém a maioria deles fugiu para a Alemanha, inclusive alguns suboficiais e marinheiros; entre eles Joseph Schreiber. Contudo, muitos tripulantes continuaram na Argentina e formaram família.


Em janeiro de 1959, na Alemanha, entrou em serviço a Schulfregate (fragata escola) Graf Spee, nome dado em homenagem ao encouraçado. Em março de 1961, este navio visitou a Argentina em homenagem à batalha do Rio da Prata, e estavam presentes os veteranos do Admiral Graf Spee.


A águia ornamental de 2 metros originalmente ostentada na popa do Graf Spee foi retirada dos destroços do navio.





Texto do Colaborador Frank Rabbit

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