A notícia do assassinato em massa no Rio de Janeiro chocou o Brasil e recebeu uma atenção enorme da mídia e, desta maneira, como psiquiatra, não pude deixar de me pronunciar também.

Muitos falam de esquizofrenia. Falam de loucura, de bullying na infância ou adolescência. Envolvimento com facções terroristas. Delírios, paranóia; alucinações. Persecutoriedade. Frieza, psicopatia.

Mas na realidade, uma das poucas pessoas que puderam na História fazer um diagnóstico sem ver o paciente foi Freud. Na primeira metade do século passado, o psiquiatra ilustrou e elaborou teorias sobre as psicoses com base na autobiografia de um juiz que com grande probabilidade sofria de paranóia. O caso Schreber se tornou célebre como uma das primeiras teorizações psicanalíticas sobre a paranóa.

Mas há aí uma enorme diferença; uma extensa biografia com descrições detalhadas de delírios e alucinações. O que não é o caso para Wellington. O que há são apenas rascunhos de cartas, alguns pares de fotos, e o fato concreto. Alguns vizinhos descrevendo seu comportamento. Nada mais. Se já é dificil muitas vezes fazer um diagnóstico acurado com o paciente em sua frente, muitas vezes temos de vê-lo diversas vezes para termos alguma hipótese, o que poderia ser dito sobre um diagnóstico realizado à distância, com tanta escassez de informação e com tão pouco bom senso?

É precipitada a tentativa de realizar-se qualquer tipo de diagnóstico. Sabemos que funcionamos por estereótipos, usamos estas categorias de idéias para podermos melhor instrumentalizar o pensamento, para podermos criar expectativas e melhor entendermos fatos, pessoas. E o diagnóstico, o rótulo,  faz parte disso. Mas é arriscado e, eu diria até mesmo injusto com a loucura, fazermos diagnóstico do ocorrido.

Ao invés disso, leio aqui Emile Dürkheim, em sua obra “O Suicídio”: “Só a sociedade, seja diretamente e em seu conjunto, seja por intermédio de um de seus órgãos, está em condições de desempenhar esse papel moderador, pois ela é o único poder moral superior ao indivíduo, e cuja superioridade este aceita.”

Por algum motivo o assassino não aceitou mais a sociedade; ou ela ficou indiferente a ele, até que resolveu dar sinal de vida, ou sinal de morte. Na mesma obra, Dürkheim menciona o termo “anomia”. Explica que em condições desta anomia, o indivíduo sente-se destacado da sociedade, perde os vínculos com esta e daí fica mais susceptível aos próprios impulsos. O caso de Wellington, pois, trata-se de anomia, e não de esquizofrenia, de psicopatia, ou do que quer que as pessoas queiram rotular o ocorrido.

Seu isolamento já dava sinais de que já não estava mais cultivando seus laços sociais. Indiferença ao outro e dificuldade e fazer e manter laços sociais é característica dos grandes centros urbanos. Se transportássemos a situação para uma cidade interiorana, por exemplo, com certeza o haveriam notado; mesmo isolado. “Aquele ali é o moço que vive calado”. Ou, se fosse o caso de uma doença mental, geralmente se ouviria “É o doidinho que mora ali”. E talvez seu estado anômico seria diminuído, pois mesmo em seu silêncio e isolamento ganharia uma imagem. Ganharia um nome, não seria anômico. Evitaria-se o pior? Talvez.

Do que temos certeza, trata-se de Dürkheim, de anomia, portanto; de psiquiatria, possivelmente, mas não sabemos ao certo de que maneira.

 

Em construção…

05/12/2010

Em breve novas reflexões.